5 de fev de 2011

De tão grande Império, a tão grande Vitupério*




Todos temos estado a ouvir de uma forma ou outra através dos meios de comunicação a crise política que está a ter lugar no Egipto. É caso para pensar, tudo se desenrola no descontentamento do povo egípcio devido ao desemprego, a falta de liberdade de expressão, a corrupção e a prolongada permanência de Hosni Mubarak e das suas acções políticas no país.

Para tal, é preciso contextualizar, não encontramos, outra vez, nada mais e nada menos do um caso de ditadura. Muhammad Hosni Said Mubarak, de profissão militar é presidente do Egipto desde 14 de Outubro de 1981, 30 anos de governo contínuo.

Tudo começou, quando motivados pela queda de outro ditador, este da Tunísia,Zine El Abidine Ben Ali, centenas de egípcios começaram os protestos, com a exigência da demissão do cargo do actual presidente. Em várias cidades do Egipto, como Cairo, Alexandria e Suez os protestantes começaram as suas inquietações no dia 25 de Janeiro de 2011 , sendo chamado o "Dia da Revolta".

Esta revolta continuou até ao dia 28 de Janeiro de 2011, "Sexta-feira da Ira", os protestantes juntaram-se por todo o Cairo e o Governo, num acto de contenção, censurou a Internet e alguns serviços de telemóvel e sms, pois segundo a legislação do Egipto permite ao governo bloquear tais serviços levando as operadoras a obedecer.

No dia 29 de Janeiro de 2011, continuam os protestos e é estabelecido um recolher obrigatório às 18:00 horas, mas a população desobedece. O acesso as pirâmides é interdito e alguns itens históricos são danificados, para grande tristeza da minha parte.

No dia 30 de Janeiro de 2011, o Banco Central Egípcio informa que todos os banco e bolsas do Egipto encontrar-se-iam fechados. Os EUA e a Inglaterra pede a retirada urgente dos seus turistas no país. O Governo fecha a agência de informação Al Jazeera, que até então relatara todos os acontecimentos. No final do dia, o Nobel da Paz Mohamed ElBaradei junta-se à população e incentiva a revolta.

De 31 de Janeiro a 1 de Fevereiro manifestantes convocam uma greve geral, o exército informa que não abrirá fogo contra a população, e o aeroporto do Cairo vive um dia de caos.

Nos dias 2, 3 e 4 de Fevereiro manifestantes pro e contra Mubarak enfrentam-se na praça de Tahrir, surgem os primeiro mortos além de mais de 600 feridos. Contudo Mubarak mantém a sua posição e diz que não renunciará do cargo até Setembro, dia de eleições do país, informando também que não se candidataria à presidência. Os conflitos se estendem pela madrugada de 2 e 3 desse mês e manifestantes pro-Mubarak armados de cocktails Molotov e armas automáticas disparam contra os contra-Mubarak matando pelo menos 5 pessoas. Por eventualidade, o exército interveio e retirou as armas. Na madrugada de 3, a situação viveu um período de relativa prosperidade.

Ocorreu uma "caça aos jornalistas" durante os confrontos destes 2 dias, levada por manifestantes pró-Mubarak, e salienta-se o ferimento grave de um jornalista sueco.

O Comité de Protecção dos Jornalistas acusa o Governo de querer eliminar as testemunhas dos seus actos.

No dia 4 de Fevereiro reúnem-se na praça de Tahrir milhões de pessoas para a tradicional oração islâmica de Sexta-feira. Protestos continuam de forma pacífica após as orações. O dia 4 ficou conhecido como "Dia da Saída".

No dia 5 de Fevereiro e após o "Dia da Saída" ter acabado a multidão concentra-se na praça Tahrir pedindo a demissão imediata do presidente. Muitos ignoraram o recolher obrigatório e permanecem durante a noite no local. Omar Suleiman, vice-presidente egípcio, sobreviveu a uma tentativa de assassinato mas dois de seus guarda-costas morreram. O governo dos Estados Unidos confirma o ocorrido, mas o governo egípcio desmente.


Ao longo de todo o acontecimento foram-se notando reacções por parte de muitas nações, entre elas os EUA e a União Europeia que apoiam os protestos mas não necessariamente a saída de Hosni Mubarak.

O Irão apoia absolutamente os protestos, a China segue os acontecimentos mas censura qualquer informações sobre os eventos do Egipto no seu país. O Brasil apoia a vitória da democracia e na Itália, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi elogia publicamente Hosni Mubarak.

E é isto, de forma sintetizada o que tem vindo a acontecer no que outrora teria sido uma grande império e agora se encontra num verdadeiro caos onde a vontade de uma povo e a prática da democracia tentam opor-se as convicções políticas dos seus governantes que fazem uso do poder com autoridade desmedida.


*Vitupério: ofensa, ultraje, afronta.


David Pampillo

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