24 de jun de 2012

O que os velhos têm para dizer

Eles podem parecer escuros, enrugados, pálidos há muito esquecidos, sedentos de uma qualquer vida que lhes fugiu...eles podem de facto, parecer isso tudo e muito pior mas ninguém lhes vê, por muito que se esforce, uma vontade meio escondida, meio à espreita que se desenrola com um carinho, com um passo de dança, uma abraço, uma companhia, um bom dia. Ninguém lhes vê uma sombra que ainda anda a pairar, reminiscente a uma vida de sacrifício, dor quiçá.
Dói-me saber como algumas pessoas os tratam, como se fossem um pedaço de carvão que ardeu o que tinha arder, uma memória, uma recordação antiga do que outrora foram...Eles que deram tanto, que tinham tanto para dar, que têm tanto para dizer! Agora vemo-los no umbral das portas, nas varandas decadentes das cidades mais concorridas, nas casas de pedra dos campos mais esquecidos. Vemo-los a regar as plantas, a cuidar dos animais como se fossem seus filhos, porque esses, esses há muito que os deixaram para o infortúnio daquela etapa que se chama velhice, e pior ainda, solidão.
Ninguém lhes sabe as dores que realmente sentiram, as dores que sentem. Ninguém lhes conhece os desejos, porque se calhar agora, não fazem sentido. Ninguém os chama mais pelo nome com o entusiasmo que eles uma vez souberam. Agora o país deixa-os à mercê dos tempos, ao encontrar da morte!
Mas eu ainda há pouco tive um que me disse, em tema de conversa, com uma jovialidade sobrenatural: "velho? Velhos são os trapos!!"



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