17 de jul de 2011

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisternas de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi:
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago

4 comentários:

PauloSilva disse...

Há que dizer tudo mesmo sem falar. Sendo mudo devemos tentar falar. E tentando falar devemos conseguir.

Belas palavras.

DavidPampillo disse...

Concordo*

SusanaPinto disse...

josé saramago diz tudo....

DavidPampillo disse...

e tudo quanto houve por dizer foi dito por ele *