Ontem éramos amigos posso
dizer. Vivíamos felizes a cometer erros, a disfarçar os maus bocados com
gargalhadas fartas de felicidade. Corríamos à mesma velocidade e contra o vento
empurrávamos o suor que se expelia dos poros. Estávamos saudáveis, a nossa
mente, digo eu, e a cada sensação o olhar enternecia de um sentimento agridoce,
como que de amargura, como que de saudade e neste desespero incorrigível as
almas elevavam quanto de mais profundo nos ocupava.
Hoje já não somos amigos.
Somos uma espécie de configuração que aparenta sê-lo, mas somos algo mais. Hoje
já não falamos da mesma forma e as palavras não saem nem se desenvolvem, e as
promessas não se criam nem se rompem, e as mentiras não se dizem nem se
escondem e isto tudo porque não temos mente para idealizar as letras, as sílabas,
os sons.
Amanhã, o amanhã não se
sabe, se desconhece. Mas deve ser uma lembrança longínqua que um dia poderei
ter, é provável que seja uma perda grande e talvez, não seja mesmo nada. Mas não importa, permanecerá comigo a ideia clara e distinta do que eu um dia fui.
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